Apreensões Indirectas




Lá ia eu outra vez. Acabara-se o fim de semana e havia que voltar á escola.
A estação de autocarros de Bragança foi construída à pouco tempo. Obra “moderna”, como diria o meu avô, o que é certo é que, apesar dos problemas visíveis que a estrutura comporta (fica para outra altura), criou-se um ponto de encontro para a juventude de à 50 anos.
O cenário é simples. Apresentam-se personagens dos dois sexos, estando o masculino representado apenas por dois intervenientes. As senhoras, sentadas com a noite reflectida nos painéis de vidro, tapam-se com os cobertores que trouxeram de casa para o efeito. Falam da vida dos outros, das delas, enfim (não estive muito tempo a cuscar-lhe a conversa). Sem olhar para o relógio, os senhores caminham em círculos em redor das senhoras, mantendo a distância, como se não quisessem estar ali, mas apesar de tudo soubessem que não tinham nada a perder. Sentam-se por vezes. A solidão é a cara dos actores.
O modo mais natural de vencer a solidão é estar com pessoas. Mas não deixa de ser curioso o local escolhido para o encontro. A Estação comporta um sistema de vivências já por si complexo. O mesmo local vê sorrisos de chegadas e lágrimas de partidas. É um vai e volta, uma maquina de acontecimentos que não tem tempos nem idades. 
Estava frio na rua (acreditem, eu sei do que falo). Mas apesar de tudo, estas senhoras e os seus andarilhos saem à rua todos os dias para se juntarem naquele lugar. De todos os problemas arquitectónicos que aquele espaço poderá ter, a partir do momento em que isto acontece o seu papel está cumprido, o que me leva a concluir que a essência dos lugares, está na preponderância do uso. São estas senhoras que ligam todos os acontecimentos daquele sitio. São a referencia temporal. No limite, são o espaço, transformando-o em algo vivo.

Imagem - João Pedro Fonte